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O filho pródigo (envolto numa pele ovina)
retorna à casa do pai.
Antigamente, muito lentamente, o Homem começou a rabiscar. Depois começou a desenhar. Finalmente, começou a escrever. Nos tempos antigos, cada rei queria fazer monumentos maiores que seus vizinhos, geralmente cobertos de desenhos e escritas antigas para algum Deus local. Mais tarde, o Homem começou a escrever em tabuletas de barro cru, quebradiças, que logo estariam corroídas pelo tempo. Nas constantes guerras os soldados queimavam os palácios e templos inimigos, mas os cacos das tabuletas endureciam com o grande calor. Aprendendo a técnica de assar as tabuletas de barro ou cerâmica, os antigos conseguiram fazer chegar até a modernidade mais de 500 mil plaquetas gravadas.

DO BARRO AO PAPIRO

Dar ordens escritas em pedras ou em placas pesadas era muito difícil. Além disso, havia a escassez de pedras adequadas e de barro para as placas. Era preciso inventar ou descobrir uma nova maneira de escrever. Por volta de 3000 a.C., a resposta foi encontrada no papiro, uma planta de até 4 metros de altura, que crescia nas terras pantanosas da foz do rio Nilo, no Egito. Os caules eram cortados em tiras, as quais eram juntadas, trançadas em ângulo reto e, em seguida, eram colocadas para secar. Estes trançados serviam para construção de leves barcos e cestos que eram pintados com desenhos de divindades. Os escribas descobriram que as fibras trançadas em forma de placa prensada, formavam uma espécie de tecido áspero para escrita. Esse tecido era banhado em azeite e, posteriormente, suavizado pelo atrito de uma pedra lisa. Em seguida, várias dessas folhas eram costuradas umas às outras, formando rolos que mediam até 10 metros de comprimento. Esse novo material de escrita recebeu o mesmo nome da planta: “papiro”. Mais tarde, os romanos começaram a aplicar cola de amido para unir as fibras, dando ainda mais valor ao papiro. Cada folha ou rolo escrito recebia o nome de “biblos”, palavra que deu origem a “bíblia” (conjunto de livros) e “biblioteca” (lugar onde se guardam os “biblos”, folhas ou rolos escritos). O papiro iria dominar mais de 4.000 anos de história.

O PERGAMINHO

O fogo e a pilhagem, tão comuns na História da Humanidade, eram fatais aos papiros. Por isso, sabe-se muito mais sobre a Babilônia do século 20 a.C. (quando se escrevia em pedras ou placas de barro queimadas) do que sobre esta mesma cidade no século 3 d.C. (quando se escrevia em rolos de papiro). Era preciso encontrar algo mais duradouro.

A primeira menção do uso de peles de animais para escrita vem da 4a. Dinastia do Egito, por volta de 2750 a.C., somente para uso religioso (como “O livro dos mortos do Egito”). Algumas passagens da Bíblia deixam claro o uso de peles para escrita.

A grande mudança aconteceria com o rei Eumenes-II (197-158 a.C), que tinha grande amor pelos livros, tendo fundado a famosa Biblioteca de Pérgamo, cidade que fica na atual Turquia. Sua biblioteca chegou a ter 200.000 “livros” (papiros, plaquetas, etc.). Quando sua coleção de livros passou a ser comparada à famosa biblioteca de Alexandria, o faraó egípcio ficou com ciúmes e proibiu a exportação de papiros, tentando reduzir a biblioteca do rei atrevido. Eumenes ficou furioso e ordenou aos seus sábios que estudassem um tipo de material que pudesse substituir o papiro. Eles verificaram que, nos desertos, muita coisa era escrita em peles de animais, desde 2000 a.C. e resolveram estudar técnicas para melhorar este processo, chegando a dois materiais:

- o Velino - preparado com pele de animais não-nascidos (fetos), ou bezerros novos e antílopes;

- o Pergaminho (para lembrar a cidade de origem - Pérgamo) - feito com peles de cabras e ovelhas.

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Preparação da pele para fazer o pergaminho

Velino - 1638

 
 

COMO SE ESCREVIA NOS PERGAMINHOS

Para escrever, o copista-calígrafo usava geralmente uma pena de ganso, cuja ponta fendida ia molhando na tinta. Uma faca, sempre à mão, servia para afiar a ponta da pena. O pigmento para a tinta de escrever era cinza de carvão, à qual se adicionava goma ou substâncias metálicas, para lhe dar fluidez e consistência. A noz de galha ou bugalho de carvalho, diluída em vinho e fixada com minerais, era outro pigmento usado no fabrico de tintas na Idade Média. Não raro, a tinta ou algumas das suas componentes eram importadas.  Usava-se tinta preta para o texto, por vezes sépia; a tinta vermelha (rubra) ficava reservada para os títulos de capítulos e para partes do texto a realçar. As outras cores e o ouro eram usadas nas iluminuras e para ornamentar as margens do livro.         

Os rolos de pergaminho eram muito mais duráveis que os de papiro e, além disso, podiam ser raspados e reutilizados. Por volta de 400 a.C. o pergaminho já suplantava o papiro. O palimpsesto era o pergaminho reutilizado, isto é, raspado novamente (“apagado e reescrito”). O pergaminho permitiu, portanto, o surgimento de livros como os atuais. Na época de Carlos Magno, o uso do pergaminho foi enriquecido, passando a receber cores como violeta, e outras. O uso popular do pergaminho estendeu-se até a Renascença, muito colorido. Grande parte dos ensinamentos do cristianismo foram conservados em pergaminhos que, hoje, estão na Biblioteca do Vaticano. O uso das folhas de pergaminho era muito mais prático que o antigo e incômodo rolo. As folhas superpostas, costuradas uma à outra, recebiam o nome de “códice”. A palavra “codex” significa “bloco de madeira”, para indicar um conjunto de tabuletas enceradas e escritas, unidas por um fio ou cordão. No códice, todas as folhas eram escritas na frente e no verso, como nos livros atuais. Era mais fácil abrir na seção escolhida; comparar certos trechos, etc. O códice unia pergaminhos sobre o mesmo assunto, num único volume. Daí surgiu o nome “código” que indica “maneira de facilitar a leitura de algo”. A palavra “caderno” vem do latim “quaternus” (quatro), indicando uma folha de pergaminho que era dobrada em quatro.

 
 

A MEMÓRIA DE DEUS PRESERVADA

Desde o reinado de Pérgamo até a massificação do papel, em 1800 d.C., não se registraram inovações significativas no processo de fabricação do pergaminho. Afinal, a multiplicação da palavra por meio da escrita dependia de um fato muito pitoresco: o nascimento de animais. Esse era um grave problema: não existiria pergaminho sem a pele de cabras ou ovelhas!

Se a Europa medieval tivesse sido vegetariana, o pensamento da Antiguidade não teria chegado até hoje, pois não existiriam animais para fornecer as peles necessárias para os pergaminhos. Provavelmente ninguém estaria estudando, hoje, humanidades e até o humanismo! E tampouco estaria lendo a Bíblia. “A memória de Deus só permaneceu viva porque surgiram o papiro e, depois, os pergaminhos” - garante Debray. Principalmente através dos pergaminhos, Deus tornou-se portátil, diferentemente dos deuses antigos que viviam apenas nas cidades e nos templos.

Moisés quebrou as tábuas dos Mandamentos, mas não as teria destruído se estivessem escritas em pergaminho! O templo de Salomão queimou, mas não os pergaminhos, que foram retirados antes da tragédia. Nabucodonosor, Antíoco, Tito, e tantos imperadores passaram, mas o couro-escrito (pergaminho) permaneceu. Nada mais que algumas tiras de pele costuradas umas nas outras e enroladas em torno de um bastão! Os deuses antigos viviam nas cidades e nos templos. Ao serem destruídos, destruía-se a imagem daquele Deus. Já o Deus de Israel vivia em rolos de papiro e, principalmente, em pergaminhos. Assim, o pergaminho foi o triunfo do Deus lido sobre o Deus visto. De fato, quase tudo que se sabe sobre os fundamentos religiosos da antiguidade passaram pelos papiros e, depois, pelos pergaminhos.

O Talmude judeu exigia que as Escrituras fossem copiadas sobre peles de animais, sobre couro. É praticamente certo, então, que o Antigo Testamento foi escrito em couro. As peles podiam medir desde alguns poucos metros até mais de 30, com altura va¬rian¬do entre 26 a 70 cm, sendo finalmente enroladas em um ou dois paus. Os pergaminhos que interessam ao cristianismo foram escritos pelos essênios entre o século 2 a.C. até a destruição do Segundo Tempo, no ano 70 d.C. Essa foi uma época de acontecimentos cruciais para a consolidação do cristianismo.

A maioria dos documentos encontrados em Qumran foi escrita em pergaminhos. O tipo de pergaminho utilizado em Qumran era de pele grossa, presumivelmente de animais pequenos como cabras e ovelhas, diferentemente dos rolos de Torá modernos, feitos a partir de couro de vaca.

Fontes:
- Revista “O BERRO”
- Pergaminho e Papel em Portugal, de Ana Maria Leitão Bandeira
- http://pt.wikipedia.org

 
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